HAVDALÁ: A HORA DO ESPANTO! - "Simanim Nifla’ot: a lua de sangue"

Uma história para a noite de Havdalá:

יֵשׁ סִפּוּר... תָּמִיד יֵשׁ סִפּוּר!

Yesh sipur... Tamid yesh sipur!

Há uma história... Sempre há uma história!





Há histórias que devem ser contadas à luz do dia. E outras que pertencem aos domínios da noite no instante em que o Shabat termina e a fronteira entre o sagrado e o profano se estabelece.

Esta é uma dessas histórias:

קֶשֶׁב וְאוֹת זֶה, לְגִלְגּוּל וְתִקּוּן בָּא; סוֹד קָדוּם יִתְגַּלֶּה

Qéshev ve-ot zeh, le-gilgul ve-tikun ba; sod qadum yitgaleh.

“Atenta para este sinal: ele vem para gilgul e retificação; um segredo antigo será revelado.


Shabat, 21 de Adar.

Cidade de Shushan... Dos Ma‘asim Nifla’im do Rav Mähren — relatos de acontecimentos extraordinários preservados de sua vida e de seus ensinamentos.

Naquela noite, uma jovem chamada Penina teve um sonho com os assuntos do rabino da região. No sonho, Penina acordou certa de que já eram seis e meia da manhã. Mas, quando olhou pela janela, percebeu imediatamente que havia alguma coisa errada. Lá fora ainda estava completamente escuro.

Não havia sinal do amanhecer. Nenhuma claridade surgia no horizonte. Tudo permanecia mergulhado naquela escuridão estranha, embora, pela hora, o dia já devesse ter começado.

Penina tinha um compromisso de estudo naquela manhã e foi procurar sua mãe. Alguém deveria tê-la acordado antes. Mas havia algo inquietante naquela casa. Era como se todos tivessem se esquecido do horário. Penina aproximou-se novamente da janela. Foi então que percebeu que havia pessoas reunidas na rua.

Homens e mulheres tinham saído de suas casas e permaneciam ali, quase em silêncio. Todos olhavam para o céu. Quando Penina ergueu os olhos, contemplou bem no centro de tudo, uma gigante Lua de Sangue.

Quanto mais Penina a contemplava, mais tinha a impressão de que aquilo estava influenciando o mundo todo. Foi então que a jovem Penina tornou a olhar para o relógio. E descobriu algo ainda mais estranho.

Não eram seis e meia da manhã, mas 3:30 da madrugada. Então, por que todos acreditavam que já era manhã? Por que ninguém sabia ao certo que horas eram como se todos estivessem sob o efeito do esquecimento?! Penina voltou os olhos para a rua e todas as fachadas das casas estavam tingidas pela luz do eclipse.

Naquela manhã, depois daquele estranho sonho, a jovem saiu para estudar com seu rabino, o Rav Mähren e levava consigo uma inquietação que não conseguia explicar. Aquela Lua vermelha permanecia em sua memória.

Quando Penina contou o que tinha visto, o velho rabino cabalista permaneceu pensativo. Havia um detalhe que tornava tudo ainda mais estranho. Exatamente uma semana antes, na terça-feira anterior, uma verdadeira Lua de Sangue havia aparecido no céu, mas nenhum dos dois havia notado isso.

Ao considerar os eventos no sonho, o rabino consultou o calendário.

Dias antes... 3 de março, 14 de Adar. Purim. Quando a Lua de Sangue ocorreu. 3 de março era o 62º dia do ano solar. Restavam exatamente... 303 dias.

Penina observava pensativa. O número 303 não lhes era desconhecido. Era o número que, em seus estudos cabalísticos, estava associado ao ano de nascimento de Rabi Chaim Vital, de abençoada memória, um antigo mestre de Tzfat de quem era conhecido em toda a região que o Rabino Mähren era um gilgul conforme a Sabedoria dos Sábios da Torá.

Então ocorreu ao velho cabalista que abrisse o livro do profeta Yoel conforme o segredo de associar um sonho à um versículo das Escrituras correspondente. E passou lentamente pelas folhas até encontrar a passagem que procurava. E leu:

הַשֶּׁמֶשׁ יֵהָפֵךְ לְחֹשֶׁךְ

וְהַיָּרֵחַ לְדָם

לִפְנֵי בּוֹא יוֹם יְהֹוָה

הַגָּדוֹל וְהַנּוֹרָא

Ha-shemesh yehafech le-choshech, veha-yareach le-dam, lifnei bo yom Adonai, ha-gadol veha-nora.

“O sol se tornará escuridão, e a Lua, em sangue, antes da chegada do dia de Adonai, o grande e temível.”

O Rav continuou a contemplar aquelas palavras. Uma delas parecia descrever exatamente aquilo que havia aparecido no sonho da garota: וְהַיָּרֵחַ לְדָם Veha-yareach le-dam. “E a Lua, em sangue.”

Então ele fez o cálculo de gematria das letras. E o resultado foi: 303. O mesmo número que ele havia verificado no calendário. Ora, a Lua de Sangue havia ocorrido sob a influência do número 303, da gematria da expressão do livro do profeta Yoel.

Mas o versículo ainda não terminara. Restavam as palavras: לִפְנֵי בּוֹא יוֹם יְהֹוָה הַגָּדוֹל וְהַנּוֹרָא

Lifnei bo yom Adonai ha-gadol veha-nora. “Antes de vir o dia de Adonai, o grande e temível.”

Pelo cálculo de Mispar Kolel utilizado naquele estudo, aquelas palavras chegavam a outro número: 583, o Rav calculou. Penina permaneceu contemplativa ao lado de seu rabino. Segredos de gematriot se revelavam dos mistérios de seu sonho! 583 era o valor em gematria do nome completo do Rav!

Mas havia algo ainda mais inquietante. O sonho de Penina acontecera numa terça-feira de madrugada. E o eclipse verdadeiro também havia acontecido numa terça-feira, exatamente sete dias antes, e como se eles tivessem deixado o evento passar em branco e agora então, os mundos espirituais despertavam a atenção do rabino para isso através dos sonhos dela, e é claro, este era o significado de porque no sonho, todos estavam confusos sobre o tempo, porque haviam esquecido, mas o sonho aconteceu para lembrá-los.

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Na manhã daquele Shabat, uma encomenda chegou à casa de estudos do Rav. Era um livro que o rabino havia aguardado. Chamava-se: O Fortim. À primeira vista, nada havia de extraordinário nisso. Era apenas um livro. Mas sua história falava de algo muito antigo. O poder do Nome Santo contra o Mal.

Dois dos personagens principais são judeus, e no centro daquela narrativa aparecia uma espada. Não uma espada comum. Ela representava o poder pelo qual o Mal permanecia aprisionado. E havia um pequeno detalhe naquela arma que chamava a atebção. Seu punho assumia a forma de uma letra hebraica.

י o Yod. A menor das letras. A chama suspensa no alfabeto. E justamente aquela pequena letra formava o punho da espada que mantinha o Mal aprisionado.

Penina olhou para o livro. Depois recordou a Lua. Recordou o sonho. Recordou as palavras de Yoel. “O sol se tornará escuridão, e a Lua, em sangue...” Até então, tudo era simples. Mas aquela história estava apenas começando. Porque quando o sol desaparecesse naquele Shabat... Penina e seu rabino realizariam a Havdalá. E, antes mesmo de acenderem a vela... outro sinal estaria esperando por eles.

Ao final da tarde daquele Shabat, Penina e seu rabino saíram para realizar a Havdalá.

O sol já descia, e pouco a pouco a luz daquele dia dava lugar às primeiras sombras da noite. Antes, porém, decidiram passar por um lugar. Parecia uma decisão sem importância. Extender um pouco o seu caminho... Entraram. Na passagem giratória, havia uma máquina que distribuía as senhas. O rabino estendeu a mão, girou o mecanismo e retirou um pequeno cartão.

Olhou para ele.

123.

Penina reconheceu imediatamente o número. 123 era o valor do nome Chaim Vital: חיים ויטל
Depois de tudo o que haviam estudado naquela manhã, encontrar justamente aquele número, naquele momento, já seria suficiente para chamar sua atenção. Mas o pequeno cartão escondia mais coisas.

Abaixo do número 123 havia outro código: 35827-J

Eles começaram a separá-lo. Primeiro: 358. Era a gematria de: Mashiach. Depois vinha: 27. Vinte e sete podia ser representado pelas letras: זך Zayin — Kaf. Zach. Uma palavra hebraica que pode significar: puro, meritório, claro, refinado. E finalmente havia uma letra: J. Na leitura simbólica que fizeram daquele cartão, o J foi tomado como equivalente à letra sagrada: Yod.

A mesma pequena letra que, naquela manhã, eles haviam encontrado no livro O Fortim. A Yod que formava o punho da espada. Aquela pela qual, dentro da história, o Mal permanecia aprisionado.

Mas o cartão ainda guardava outro detalhe. Nele aparecia o nome de um estabelecimento comercial: VIVANT. Uma palavra francesa. Vivente. Vivo. Estar vivo. Em hebraico, aquela ideia conduziu-os à palavra: BeChayim. “Em vida.”

Ou, literalmente para os olhos do rabino que rastreava a sequência de sinais “em Chayim.” Penina olhou novamente para o pequeno cartão. 123. 358. 27. J. Vivant. BeChayim.

Tudo aquilo estava impresso em um pedaço de papel que, poucos instantes antes, ainda permanecia escondido dentro de uma máquina. E então o estudo tornou-se ainda mais estranho.

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Havia uma maneira particular de calcular o valor de uma palavra chamada Mispar Ha'Achor. Nesse método, não bastava considerar o valor de cada letra. Era preciso multiplicá-lo pela posição que aquela letra ocupava dentro da palavra. E eles fizeram isso com: BeChayim. A primeira letra era Beit. Seu valor era 2. Como ocupava a primeira posição: 2 × 1 = 2. A segunda era Chet. Seu valor era 8. Na segunda posição: 8 × 2 = 16. Depois vinha Yod. Valor: 10. Na terceira posição: 10 × 3 = 30. Outra Yod ocupava a quarta posição: 10 × 4 = 40. Por fim vinha a letra Mem de valor 40. Na quinta posição 40 × 5 = 200.

O Rav revelou a soma: 2 + 16 + 30 + 40 + 200 é igual a 288.

E aquele número também lhes era conhecido de seus estudos cabalísticos. 288 era o valor associado a Yibur. O mistério da impregnação de uma alma judaica.

Agora o pequeno cartão que o rabino segurava parecia reunir, numa sequência milagrosa:

123 — Chaim Vital.

358 — Mashiach.

27 — Zach, puro, meritório, claro, refinado.

J — Yod. Vivant — vivo. BeChayim — em vida, em Chayim.

E pelo Mispar Ha'Achor de BeChayim: 288 — Yibur. O velho e experiente Rav permaneceu olhando para aquele pedaço de papel. E então se desenhou um exercício de contemplação em sua mente. Uma pergunta simples... mas difícil de afastar. Quantas pessoas haviam entrado naquele lugar naquele dia? Quantas tinham atravessado aquela passagem giratória? Quantas mãos haviam girado aquela mesma máquina? Quantas senhas haviam sido retiradas antes daquela? E não apenas naquele dia. Quantas pessoas haviam passado por ali nos dias anteriores? Quantas estavam a caminho, mas mudaram de ideia?

Quantos pequenos passos teriam de ser alterados para que outra pessoa chegasse primeiro e retirasse justamente aquela senha? Era preciso imaginar todas aquelas pessoas. Todos aqueles caminhos. Todas aquelas decisões aparentemente insignificantes.

Como se milhares de passos tivessem sido dispostos, um depois do outro, para que, naquele preciso instante, aquela máquina girasse... e entregasse ao velho Rav o 123.
Jamáis tudo aquilo era apenas coincidência, um número registrado mecanicamente sobre um pedaço de papel...

Agora tínhamos uma Lua de Sangue. O versículo de Yoel. O número 303. O 583. 
E agora... 123. O pequeno cartão foi guardado. E os dois seguiram seu caminho. Ainda faltava realizar a Havdalá.

E talvez a pergunta mais inquietante daquela tarde fosse justamente aquela que os acompanhou ao deixarem o local: Como se reconhece um Yibur? Segundo a interpretação que estavam construindo a partir daqueles acontecimentos, havia uma resposta: pelos sinais que se manifestam no mundo.

E naquela noite... os sinais ainda não haviam terminado.

Sobre a mesa foram colocados o vinho, as especiarias e a vela trançada. Pouco depois, a chama foi acesa. Motivado por tudo aquilo o velho cabalista decidiu voltar a uma passagem conhecida da própria Havdalá. Do profeta Yeshayahu, o chamado hino do copo da salvação:

הִנֵּה אֵל יְשׁוּעָתִי אֶבְטַח וְלֹא אֶפְחָד
כִּי עָזִּי וְזִמְרָת יָהּ יְהֹוָה
וַיְהִי־לִי לִישׁוּעָה

Hineh El yeshuati, evtach velo efchad;
ki ozi vezimrat Yah Adonai,
vayehi li lishuah.

“Eis que Deus é a minha salvação; confiarei e não temerei; pois minha força e meu cântico é Yah, Adonai, e Ele se tornou para mim salvação.”

Penina conhecia aquelas palavras. Naquela noite o rabino as recitava não como simplesmente parte do ritual. Estava investigando alguma coisa nelas.

E, diante da jovem, descortinou mais uma vez aquilo que havia recebido da alma de seu mestre o Arizal, o segredo do nome de Rabi Chaim Vital oculto naquela passagem a partir da palavra Yeshuati cujo valor Reverso Avgad na gematria é 583 da mesma gematria de Mashiach, até a palavra Vezimrat, escrito como numa lista telefônica "Vital Chaim".

A chama continuava ardendo. E pouco a pouco uma suspeita começou a tomar forma. Talvez eles tivessem deixado alguma coisa passar despercebida.

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Será que não haviam feito Hitbonenut necessária?

E então se debruçaram novamente nos antigos livros... Na interpretação que fizeram posteriormente, o sonho teria vindo justamente para chamar a atenção para aquilo sobre o qual ainda não haviam meditado suficientemente. 

E quando começaram a investigar o próprio nome do fenômeno... encontraram outra chave cabalística:  לִיקּוּי לְבָנָה Likui Levanah que se traduz Eclipse da Lua. Aplicando o método de gematria Mispar Ne'elam, o cálculo empregado naquele estudo resultava em: 667. E 667 correspondia, segundo o mesmo cálculo registrado por eles, a רבי יצחק לוריא Rabino Yitzchaq Luria. O Arizal. O Antigo Professor de Tzfat.

Ora, primeiro, a Lua de Sangue conduzira aos números associados a Chaim Vital. Agora... o próprio eclipse da Lua sinalizava ao nome de seu mestre, Rabi Yitzchaq Luria. Investigando os textos antigos se descobriu no Talmude Bavli, no tratado Sucá, 29a uma passagem explicativa:

A chama da Havdalá permanecia acesa enquanto o velho rabino procurava a passagem. E leu-a: Tanu Rabbanan: Bizman she-haḥammah lokah — siman ra la-goyim. Levanah lokah — siman ra le-son'eihem shel Yisrael. Mipnei she-Yisrael monin la-levanah, ve-goyim la-ḥammah.

Penina escutava.

O rabino continuou: Lokah ba-mizrach — siman ra le-yoshevei mizrach. Ba-ma'arav — siman ra le-yoshevei ma'arav. Be-emtza ha-rakia — siman ra le-khol ha-olam kulo.

“Ensinaram nossos mestres: quando o Sol é eclipsado, é um sinal negativo para as nações. Quando a Lua é eclipsada, é um sinal negativo para os inimigos de Israel” — uma maneira eufemística de se referir ao próprio Israel. Pois Israel conta o tempo pela Lua, enquanto as nações o contam pelo Sol.”

E então vinham as últimas palavras: “Se o eclipse ocorre no Oriente, é um sinal negativo para os habitantes do Oriente. Se ocorre no Ocidente, é um sinal negativo para os habitantes do Ocidente...”

O rabino fez uma pausa. Penina esperou.

Então ele terminou: “Mas se ocorre no meio do firmamento... é um sinal negativo para o mundo inteiro.”

Penina se lembrou imediatamente dos detalhes de seu sonho. Ela não vira a Lua próxima do horizonte. Não a vira surgindo ao longe. Em seu sonho... a Lua de Sangue estava bem no centro do céu. E as pessoas haviam saído de suas casas para contemplá-la. Não parecia um acontecimento local. Parecia... mundial.

A mesma impressão que a pequena Penina tivera enquanto sonhava. Agora aquelas antigas palavras do Talmud estavam diante dela: Be-emtza ha-rakia.“No meio do firmamento.”

E então: Siman ra le-khol ha-olam kulo. “Um sinal negativo para o mundo inteiro.”

A vela da Havdalá continuava queimando. "Veja a precisão do sonho!" ela exclamou!

Naquele momento, ninguém sabia o que poderia vir depois. Mas uma palavra já havia começado a acompanhar todos aqueles acontecimentos. Uma antiga palavra: Siman. Simanim Nifla'ot "Sinais maravilhosos!"

Depois de tudo o que tinham encontrado — a Lua de Sangue, o sonho, os números e as antigas palavras do Talmud — Penina e o velho Mahren voltaram-se para a chama da vela.

Havia entre eles um costume ensinado pelo Arizal. Durante a Havdalá, observavam atentamente o fogo, procurando perceber se, por alguns instantes, alguma letra hebraica surgiria das chamas. Naquela noite uma letra apareceu...

Aos olhos deles, a chama desenhou com extraordinária nitidez uma letra: ז Zayin.

Penina permaneceu olhando. Zayin era a inicial de: זוהר Zohar. Zayin é o sétimo dia. Sete dias após o evento da Lua de Sangue no mundo, o sonho aconteceu...

Penina observava a chama quando se lembrou de outro detalhe. Um detalhe aparentemente pequeno, mas que desde o sonho permanecia sem explicação. O relógio. No sonho da Lua de Sangue, ela primeiro acreditara que eram seis e meia da manhã. Depois descobrira que não. O relógio marcava exatamente: 3:30 da madrugada. Três e trinta se torna 33 com a exclusão do zero.

O rabino então abriu novamente o Tehilim e mostrou-lhe um versículo que fazia parte daquela mesma noite de Havdalá: גַּל־עֵינַי וְאַבִּיטָה נִפְלָאוֹת מִתּוֹרָתֶךָ

Gal einai ve-abita nifla'ot miToratecha. “Desvenda meus olhos, para que eu contemple as maravilhas da Tua Torá. Penina dirigiu sua atenção para a primeira palavra: גַּל Gal. “Abre.” “Desvenda.” “Revela.”

O seu velho Rav lhe ensinou que o valor de גל — Gal era: 33. As mesmas cifras que haviam aparecido no relógio do sonho: Como se aquela hora guardasse uma ordem: Gal einai. “Abre meus olhos.” “Revela aos meus olhos.” Para que eu veja... נִפְלָאוֹת Nifla'ot. As maravilhas.

Ora, aquele não era um versículo escolhido depois simplesmente porque seguia a interpretação do sonho, mas faz parte do ritual de Havdalá, no momento em que se molham as pontas dos dedos no vinho, então recita-o. 

Logo a jovem Penina compreendeu por que aquela palavra parecia tão inquietante naquela noite.
Certamente sinais no céu apareceram e o sonho veio para dizer: “Vocês não olharam com atenção.” "Então abram os olhos para as maravilhas da Torá".
Algo estava sendo revelado pouco a pouco, grau a grau.

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O Anjo da Morte espreita...
A história não terminara com a Lua de Sangue.

Algum tempo depois, a pequena Penina teve outro sonho. Era Shabat, 7 de Nissan  — 25 de março no calendário solar. E, se no primeiro sonho alguma coisa parecia anunciar-se no céu, desta vez ela se concretizou!

No princípio do sonho, Penina via repetidamente uma figura que conhecia dos antigos filmes de terror: a criatura de Jeepers Creepers, o corvo da morte. Contudo, havia algo ainda mais profundamente perturbador e sinistro naquela visão. A aparência do corvo da morte se misturava a figura do rabino vestido como ele esteve em Chag Purim. E para confirmar isso, entre as imagens oníricas, uma epidemia assolava o mundo, e a jovem e o seu Rav estavam reclusos em algum lugar protegidos. Quando decidiriam sair pelas ruas, foi então que o sonho se tornou verdadeiramente inquietante:

Conforme caminhavam, pessoas começaram a surgir pelo caminho. Não apareciam todas de uma vez. Primeiro uma. Depois outra. Mais adiante, outra. E cada uma delas trazia no corpo os sinais da contaminação. Quanto mais Penina e seu rabino avançavam, mais enfermos encontravam, como se a epidemia estivesse alguns passos à frente deles, esperando-os em cada rua por onde passavam. 

E aquelas pessoas doentes despertaram em Penina uma imagem muito mais antiga que se materializou no sonho: os médicos da peste bubônica. E era como se andassem por aquela época.

Os longos trajes escuros, os chapéus e, sobretudo, aquelas terríveis máscaras de bico comprido. Homens que caminhavam entre os moribundos com rostos de aves negras. Homens que, vistos de longe, quase deixavam de parecer humanos.
Eles eram os arautos da Morte!

Foi então que a imagem do Rav se sobrepôs a tudo isso, e ela o viu trajando a fantasia que havia preparado algum tempo antes para a festa de Purim. Esse era o significado central de todos os símbolos apresentados por aquele sonho. A fantasia que seu mestre usara, era de um médico medieval do tempo da peste:

O corvo da morte!

Que sonho sinistro! Ela pensou, mas ao acordar, a compreensão lhe tomou de súbito e ela entendeu tudo!
Faltava, porém, ainda uma peça. Para encontrá-la, era necessário voltar no calendário, para uma noite aparentemente inocente em que ninguém sonhava com epidemias, presságios ou morte.

21 de janeiro daquele mesmo ano.

Naquela noite, o velho Mahren havia se vestido de Corvo da Morte para se preparar para a festa de Purim, como é de costume dos judeus se fantasiar. O rabino pretendia criar uma atmosfera sombria para que seus alunos mergulhassem no clima da comemoração. Uma brincadeira cuidadosamente preparada... 
Ao reestudar esse momento, descobriu-se que aquela noite caiu em  3 de Shevat dentro da semana da Parashat Bo.

Porque Bo é justamente a porção em que as pragas do Egito caminham para seu terrível desfecho. Vêm os gafanhotos. Depois a luz desaparece e o Egito é coberto pela escuridão. E finalmente chega aquela noite em que as portas são fechadas, as famílias permanecem dentro de suas casas e o sangue é colocado nos umbrais como sinal de proteção.

Porque naquela noite... a morte dos primogênitos atravessaria o Egito!  Depois daquela noite, Israel deixaria para trás o domínio egípcio. 

E ninguém havia calculado nada disso.

Ninguém escolhera 3 de Shevat por causa de Bo. Ninguém se fantasiara pensando na escuridão do Egito. Ninguém se vestira de Malach haMavet com quaisquer intenções além da preparação para Purim...  A festa do Mashiach!

Mas quando Purim chegou, outra coisa estava preparada pelo Mazal e pelos Céus.
Conforme o Rav continuou investigando os acontecimentos guiado pelas informações no sonho de sua aluna, ele foi descobrindo o aspecto oculto de tudo:

Na noite de Purim, acima deles uma Lua de Sangue brilhava em intensos raios de julgamento. A mesma Lua cuja existência seria lembrada por um sonho exatos sete dias após o evento.

Assim que Penina terminou de transmitir seu segundo sonho ao Rav, ele caiu na cadeira de honra de seu mestre o Arizal boquiaberto e entendeu toda a trama que se desenrolava...

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Entre os alunos do Rav, havia três em particular, Chai, Melech e Akév, os quais ele esperava para a noite de Purim, mas eles não puderam comparecer porque um deles foi acometido por uma doença e isso impediu aos outros.

Agora ficava claro ao velho cabalísta o motivo de tudo aquilo:

Adar é o mês da boa sorte para o povo judeu. O mês de Adar foi criado pela letra Quf. Purim é uma festa de caráter profundamente messiânico: sua redenção antecipa a Redenção final, e sua luz continuará mesmo na Era de Mashiach.
Ora, nem todo milagre acontece de forma aberta, como a abertura do mar. Em toda a Meguilá, a Providência parece ocultar-se. Cada acontecimento isolado poderia ser chamado de coincidência: Purim representa o milagre oculto: quando observamos toda a sequência, percebemos a Hashgachá Pratit, a Providência Divina, agindo por trás deles. Essa é uma das lições de Adar: reconhecer que aquilo que parecia acaso pode fazer parte de uma sequência de sinais. O Santo, Abençoado Seja Ele, dirige os acontecimentos precisamente enquanto permanece escondido dentro deles.
Adar traz consigo o segredo da reversão. Aquilo que estava pesando no lado da transgressão pode, através da teshuvá por amor, ser transformado em mérito. Por isso Purim é marcado pelo princípio de venahafoch hu — ‘tudo se reverteu’: tristeza em alegria, decreto em salvação e, no plano espiritual, até mesmo pecados podem ser convertidos em méritos.

No entanto, os irmãos foram impedidos de participar da Luz redentora de Purim e reverter os processos do seu tikun anulando a acusação que recai sobre si e alcancando a balança do mérito.

Era de conhecimento do Rav, à luz das revelações que recebia por Ibur das neshamot de antigos mestres, que uma centelha da alma do Maharal de Praga, seu ancestral, encontrava-se ligada à sua própria neshamá. Mas com aquela centelha vinha também uma antiga corrente de tikunim, capaz de trazer novamente para perto dela as almas relacionadas aos assuntos que haviam permanecido sem retificação.

Foi por essa corrente que Carl, Heinrich e John, os irmãos que haviam se levantado contra o Maharal na velha Praga, foram novamente aproximados do Rav Mähren. Aqueles mesmos irmãos fizeram gilgul em sua geração e, sem que o Rav inicialmente percebesse a ligação, foram conduzidos justamente ao seu centro de estudos para se aproximarem da Torá e da Qabalah. Somente mais tarde o Rav reconheceria o que estava acontecendo: a corrente de tikunim da alma do Maharal havia reunido novamente, séculos depois, as almas envolvidas naquela antiga história.

Nas Nifla’ot Maharal, de Yudl Rosenberg, a história começa em 1589, quando Carl e Heinrich trabalhavam no curtume de Reb Aharon Gins, em Praga, juntamente com seu irmão mais novo, John, conhecido como Kozilek [um diminutivo derivado de kozel, que se traduz “cabrito macho” ou “pequeno bode”]. Após um acidente no curtume, John ficou debilitado e passou a guardar ressentimento. Na noite de Purim, aproveitou a festa na casa de Reb Aharon para roubar taças, talheres e um relógio de prata, fugindo depois para a casa da mãe, onde seu estado se agravou até que morreu. Carl e Heinrich ocultaram as verdadeiras circunstâncias da morte do irmão e deram início a uma trama que acabaria colocando os três nomes no caminho do Maharal de Praga: desenterraram o corpo de John, levaram-no secretamente para perto do cemitério judaico e esconderam suas roupas no porão da casa de Reb Aharon. Depois espalharam a acusação de que os judeus haviam assassinado John para utilizar seu sangue, desencadeando um libelo de sangue que ameaçava aqueles que estavam sob a proteção do Maharal.

Foi então que o Maharal se ergueu contra a acusação. Ele interveio para impedir o ataque ao bairro judaico e sustentou diante das autoridades que tudo havia sido armado, embora as provas plantadas por Carl e Heinrich parecessem confirmar o crime e levassem Reb Aharon e sua família à condenação. Convencido de que John havia morrido naturalmente, o Maharal iniciou uma investigação até que seus emissários chegaram à aldeia de origem dos irmãos, localizaram a sepultura original de John e alcançaram sua mãe, que finalmente revelou que o filho chegara doente à sua casa, morrera ali e fora enterrado pelos próprios irmãos. Os objetos roubados também foram encontrados, e toda a trama veio abaixo. Carl e Heinrich fugiram de Praga, Reb Aharon e sua família foram libertados e o Maharal venceu o libelo que se levantara diante dele. Mais tarde, em Pessach, o próprio Maharal voltou a contar o episódio como exemplo de como a Providência pode fazer a verdade emergir mesmo quando a mentira parece ter triunfado.

E agora emergia ali diante do Rav Mahren o gilgul dos irmãos kozel para realizarem o tikun de suas nefashot.

E então chegou 18 de março. Faltavam poucos dias para Pessach. Adar estava morrendo lentamente no calendário, e Nissan — o mês do Êxodo — já se encontrava às portas. Mas aquele dia trazia consigo uma combinação de números que, depois de tudo o que Penina e seu rabino haviam visto, parecia estranhamente familiar.

Era o Dia Nacional da Imigração Judaica e também o 77º dia do ano. Setenta e sete era a gematria de מזל — Mazal. E, depois daquele dia, restariam exatamente 288 dias para o término do ano.

O número já havia aparecido antes. Era o valor encontrado no Mispar Ha'Achor de BeChayim, mas esse era também o valor em gematria do nome completo do Maharal: יהודה ליווא בן בצלאל Yehuda Löwe ben Betzalel.

Ora, o Rav investigava... Na leitura da Parashat Bo quando a praga dos primogenitos atinge o Egito e Israel é libertado!

E naquele 18 de março, 29 de Adar, véspera de Rosh Chodesh Nissan, chegara a notícia que tornaria a sequência ainda mais sombria: um dos primogênitos da família Kozel caira morto.

Então a imagem do sonho se revelou diante do Rav, durante a festa de Purim ele esteve vestido com os trajes cerimoniais do Anjo da Morte, o Malach haMavet!

Que terrível! Um clima tenebroso e milagroso pairou no ar pesando com a força daquela revelação!
Rapidamente o Rav correu para seus cadernos e mostrou à jovem Penina algumas anotações dentre as quais estava um segredo de gematria para o nome Maharal que equivalia a exatamente 123 no Atbash!

Agora já não havia véu algum. A morte estava sentada no meio da sala olhando para o caixão do defunto!

O conflito do passado acontecera justamente em Adar, a letra principal no sobrenome dos irmãos era o Quf. E o desfecho se dava em Pessach.

Aquela noite de Purim havia sido destinada à recepção de uma luz de retificação, onde as cortinas da densa noite subiriam revelando os personagens por detrás das máscaras. Assim que suas identidades foram reveladas, suas almas começaram a receber o processo do Tikun, e os irmãos de antigamente não podiam fugir de repetir os seus erros, eles estavam forçados pelo seu mazal e pelos segredos dos gilgulim que estabelecem um limite de três reencarnações até a transformação da alma para o caminho da santidade.

E por causa disso, o Rav continuava explicando, na penúltima Shabat de Shevat ocorrera o conflito que selaria todo o plano do Gilgul: novamente os irmãos kozel se levantaram contra a alma do Maharal e começaram a julgar desfavoravelmente o rabino proferindo motzi shem ra, difamação contra ele. E mesmo isso é parte de um grande milagre oculto e de uma grande benção do Santo, Abençoado Seja Ele, que faz coisas e coisas que a mente humana não compreende, para revelar os Seus Designios e o Seu modos operandi neste mundo!

E por causa de suas palavras e por causa de seu mazal, uma Lua de Sangue se levantou aquela noite para profetizar a trama que já havia sido traçada séculos atrás.

Ora, durante todo o mês de Tevet, a Havdalá havia coincidido com o dia do shiur. E os assuntos estudados durante aqueles encontros eram precisamente morte e sepultamento, pureza e impureza relacionadas ao morto e os sete dias de luto. 

Na época, ninguém imaginara que aqueles estudos adquiririam posteriormente um aspecto tão perturbador. Quando o Rav se fantasiou de corvo da morte, aquilo era uma pequena profecia que se revelava através dele.

Mais e mais místerios brotavam da alma do Rav a medida em que ele ia explorando esses segredos e tantos e mais outros se revelavam como o canto de uma cigarra que alcança demasiadas alturas e é incalcansável...

Um dos integrantes da família kozel se chamava Akév. Quando o velho rabino cabalísta o conheceu, eis que procurou o seu nome nos códigos da Torá conforme é da tradição dos cabalistas e lá estava completo "Akév filho de Adar" - Akév Bar Adar; e qual era o grande mistério nisso? Pois o Rav não havia conhecido Akév em Adar. Por causa dos segredos que estavam enrolados no pergaminhos daqueles sonhos descobriu-se seu gilgul e sua raiz de alma e o segredo dos irmãos-cabra que vinham para carregar o tikun das faíscas que compunham suas almas por sobre seus chifres como no segredo do Bode Expiátorio que é mandado embora carregando as transgressões de Israel.

O grande ciclo do Gilgul tornava a se enrolar como a serpente que morde a própria cauda!
Pegadas deixadas na escuridão da memória eram iluminadas pela luz dos dinim [julgamentos] de uma Lua de Sangue...

E agora os gilgulim dos irmãos kozel davam mais um passo rumo à sua retificação, embora em seus corações e em suas mentes não pudessem compreender ainda o grande milagre do qual participaram!

Após ouvir todas essas revelações de seu mestre, a jovem Penina ficou ela mesma maravilhada! E em seus pensamentos seguia os conselhos do Grande Rav, o Rav Akiva de quem seu professor também era um gilgul, que não havia nada naquela história que fosse verdadeiramente terrível, mas tudo tratava-se das regras do Mishpatim.

E como as próprias regras ditam, após passarem por toda essa experiência, as centelhas da impureza se amontoaram sobre seus desejos como as pedras que são lançadas contra uma mente confusa e os irmãos Kozel retornaram com ainda mais força para a idolatria até o dia, num novo gilgul no qual suas almas estarão prontas para aderir à Torá, como será o destino de todo o mundo!

E esta é uma das histórias maravilhosas e misteriosas da vida de nosso Rav, o Filho de Mähren, entre as muitas experiências cabalísticas que marcaram sua jornada. Para que não se perdessem, foram cuidadosamente preservados e registrados por sua Talmidat haKabbalah e testemunha, Rabanit Penina, nos encalços da Era Messiânica [5787]. Assim se conclui este Ma‘asê Niflá — e o aluno dedicado deve se envolver nesses assuntos profundos.

שָׁבוּעַ טוֹב וּמַזָּל טוֹב!
Shavua Tov u-Mazal Tov!
“Uma boa semana e boa sorte!”

Segunda Havdalá de 5787

Rhéah Rute Penina


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